O retrato de Dorian Gray, de Oscar Wilde

Abri O retrato de Dorian Gray em grande expectativa. O motivo, ser Oscar Wilde uma das personalidades mais intrigantes da história. Lembro-me das palavras de Carpeaux: “Sua vida, foi obra de gênio; e ao gênio a sociedade sempre fez pagar caro a singularidade de sua natureza”. Abri o livro, pois, desejoso da manifestação do gênio. Encontrei. O retrato de Dorian Gray é romance que só pode ser escrito por um grande artista. A começar, pelo enredo: a história é instigante desde o primeiro ao último capítulo. Os três principais personagens do livro estão muitíssimo bem desenvolvidos; amigos, representam faces conflitantes de uma mente genial. A moral é posta à prova, a arte em evidência, as relações sociais em cheque e os dramas psicológicos a faiscar. Basil Hallward, como poucos, retrata a personalidade de um artista. Lord Henry Wotton é personagem com vivacidade impressionante. E Dorian Gray desenvolve-se em arco engenhoso traçado por Wilde. Sobeja na obra a coragem, a acuidade psicológica: o autor não escreve acorrentado, não teme a rejeição. E consegue, assim, expressar-se com sinceridade e potência, entregando personagens singulares e reais. Não há que dizer: Oscar Wilde continuará difamado pelos séculos dos séculos. Mas jamais deixará de ser o que foi: um grande artista.

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Coragem!

Nova aula de Camões:

(Mote que lhe mandou o Viso-Rei)

Muito sou meu inimigo,
Pois que não tiro de mi
Cuidados, com que nasci,
Que põe a vida em perigo.
Oxalá que fôra assi!

(Volta)

Viver eu, sendo mortal,
De cuidados rodeado,
Parece meu natural;
Que a peçonha não faz mal
A quem foi nella criado.
Tanto sou meu inimigo,
Que por não tirar de mi
Cuidados, com que nasci,
Porei a vida em perigo.
Oxalá que fôra assi!

Tanto vim a accrescentar
Cuidados, que nunca amansão
Em quanto a vida durar,
Que canso ja de cuidar
Como cuidados não cansão.
S’estes cuidados, que digo,
Dessem fim a mi e a si,
Farião pazes comigo;
Que pôr a vida em perigo,
O bom fôra para mi.

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O ritmo das letras

Na prosa a pontuação, a extensão dos períodos, o encadaeamento dos parágrafos; na poesia, além da pontuação, a distribuição das tônicas, a extensão dos versos soltos e relacionados entre si: eis os balizadores do ritmo das letras. Já quanto ao ritmo: terreno arenoso, traiçoeiro; fera indomável; enigma maravilhoso e irresolúvel; perfeição visível mas distante, muito distante…

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As luzes faíscam do seio das trevas

Trecho de Camilo Castelo Branco, em Lagrimas Abençoadas:

Como é que da seiva do erro se nutrem viçosas as vergonteas da verdade? As luzes faiscam do seio das trevas. Ha máximas preciosas que brilham ao clarão dos incendios philosophicos.

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