No que tange ao ritmo, parece carecer o poema de um apoio, uma tonicidade esperada em sílabas específicas, para que haja um senso de harmonia e que as rupturas planejadas possam se destacar. Se varia o padrão rítmico a cada verso, não há padrão e, portanto, não há base rítmica sobre a qual os versos se apoiem. A menos que declaradamente se faça poesia destituindo-a de musicalidade, a regularidade tão criticada parece uma condição necessária a poemas que se queiram bons.
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A língua oferece, a todos, possibilidades idênticas
A língua oferece, a todos, possibilidades idênticas. Não é ela senão um conjunto imenso de signos a ser utilizada como veículo de expressão de ideias, fatos, sentimentos. Numa obra de arte, pois, o manejo da língua, o estilo, será tão mais autêntico quanto mais individualizar a expressão daquilo que se propõe a expressar, ou seja, quanto mais a singularidade do artista ficar exposta através do conjunto de signos universal. Pois bem. Parece que a partir deste raciocínio — correto — ficou legitimado o vale-tudo nas letras e, em razão de outro raciocínio que frequentemente o acompanha, — o de que, em arte, o importante é ser “original”, — verdadeiras aberrações foram reputadas como maravilhas. Defrontando tais obras, ficamos com a sensação de que há algo de errado, de que não pode ser bom algo tão simplório, somente por diferente. E então parece justo observar que a verdadeira maestria, em arte, faz aparentar simples o complexo — e não o contrário…
Se temos a forma como um meio…
Se temos a forma como um meio, — e não como um fim, — e a técnica como expressão de uma individualidade, é preciso admitir um certo relativismo quanto à qualidade estética de uma obra. Melhor dizendo: embora muitos tenham tentado fazê-lo, não é possível estabelecer, em arte, critérios rígidos e universalmente aplicáveis para julgar uma obra. Especialmente quanto à técnica, não é raro vermos artistas de primeiro escalão parecerem cultivá-la de maneira antagônica, deixando óbvio, portanto, que este “como” é válido enquanto potencializador de uma individualidade que, esta sim, é medida razoável da grandeza de uma obra.
Lemos um punhado de poemas coevos…
Lemos um punhado de poemas coevos e vamos percebendo: rompe-se com a pontuação, dispensa-se as maiúsculas, os versos são o mais das vezes curtos, e parece-lhes o efeito depender da estética e das palavras solitárias enquanto unidades de sentido. A verdade é que se tira efeitos interessantes de tais técnicas, já amplamente exploradas… Sugerem um como êxtase estas construções meio irracionais, meio exóticas e aparentemente desleixadas; mas parece a mais drástica mudança, no que tange à técnica, consistir em que os poemas tornaram-se peças visuais. Ainda que dependentes das palavras, têm eles a sonoridade como secundária, e são feitos para serem lidos, ou melhor, visualizados — jamais declamados. É certo: encontramos uma ou outra aliteração, um ou outro paralelismo; mas não quiseram ser tais poemas construções rítmicas. Há de se admitir: ainda que por vezes careçam de técnica, em muitos deles encontramos gênio — o que sem dúvida é superior…