Estou, concentrado, a compor alguns versos. Sinto-me a mente fervendo. Pulo de um dicionário ao meu rascunho, altero palavras, evoco imagens e idealizo o ritmo ideal. Acho um vocábulo, encaixo-o num verso; mas travo. “Avanças”: carece este verbo de rima. Quero brilho, condenso os esforços, estimulo energicamente o pensamento. Eis que escuto um sussurro: “Esquivanças, esquivanças!”. Ah, Camões!… que surpresa! O sorriso é-me automático: ganhei o dia! Uma rima excelente, excelente, mas… que dizer? como disfarçar-me a grosseria? Continuo sorrindo. Não posso simplesmente dizer que mudaram os tempos; são os meus versos, senhor Camões, especificamente os meus versos, que possuem esta aridez inata que é refratária ao teu brilho e à tua sensibilidade. Eu não sei fazer esse tipo de rima. Mesmo que eu queria, mesmo que eu force, os meus dedos não digitam esta palavra dentro de um verso. Mas agradeço, agradeço muito. Passarei o restante do dia, como um louco, rindo sozinho.
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Percorro vários dos discursos de Osho…
Percorro vários dos discursos de Osho e sou gradativamente provocado por uma engraçada ironia. Eu, que repetidas vezes alfinetei a “mente ocidental” e seu formalismo; eu, enquanto percorro estas linhas, interpelo o autor a cada página: “De onde tirou isso? Onde está esta e aquela outra citação de Buda? E este sutra, de onde vem? De onde estão saindo todas essas frases entre aspas?”… É como se uma força me dissesse: “Não era isso que desejavas? Não estavas tu, ainda hoje, debochando da referenciação estéril e da fundamentação capenga de um sujeito?”. Pois é, pois é… A verdade é que sou insuportavelmente ocidental. Leio orientais com prazer, mas é possível que não soubesse sequer me portar diante de um deles. Se lhes algo aprendi e aprendo, não há dúvida que há entre nós uma discrepância fundamental que me não permitirá, nunca, assumir-lhes integralmente qualquer doutrina, vê-la plenamente impregnada no meu pensar e agir ou, noutras palavras, há um limite de quanto lhes posso aceitar. Assim, aproveito algumas centenas de páginas mas, dado momento, a mente fatiga e exige-me um volume com bibliografia e notas de rodapé.
Em tônicas sequenciais…
Em tônicas sequenciais, algo quase sempre de sonoridade desagradável em poesia, dá-se uma escalada de acentuação que, enfraquecendo o primeiro acento, tonifica o segundo. Poder-se-ia dizer que, desta maneira, gera-se artificialmente no verso uma acentuação mais forte que a de uma sílaba tônica comum: portanto, uma átona escala para uma acentuada que escala para outra mais acentuada. De maneira inversa, é possível gerar um movimento de acentuação artificialmente decrescente nalguns casos quando, trabalhando versos binários, insere-se um vocábulo esdrúxulo cuja última sílaba ocupa uma posição onde deveria haver acento; o efeito é oposto: esta última sílaba, embora não seja, parece menos acentuada que a anterior, graças à ressonância da primeira, que assim aparenta mais forte que normalmente seria. Ambos procedimentos, se utilizados com inteligência, podem suscitar efeitos interessantes.
E notável a quantidade de escritores que romperam…
E notável a quantidade de escritores, grandes escritores, que romperam com o idioma materno no último século. Parece este ter sido o século dos desterrados. Boa parte deles expatriaram-se em decorrência das guerras, mas houve vários que o fizeram livres de estímulo exterior. Disso, a decisão mais ou menos natural do rompimento. Curioso: é improvável que o prazer ou, talvez, o fascínio de escrever em língua estrangeira dure mais de dois ou três parágrafos; logo se desvela o trabalho penosíssimo que se há de fazer ante o dicionário. Mas ainda assim, prosseguiram eles, acaso com uma força de vontade que mereça admiração dobrada. E que dizer dos poetas? Estes, certamente eximiram-se do purgatório… E a tendência, parece-me, não se foi com o século, com a diferença que, agora, parecem todos elegerem a mesma opção. Que concluir?