Parece incompleta uma obra que não esboce, não arrisque soluções para os problemas que propõe. É inevitável… O alto espírito tem de esforçar-se por uma superação de si mesmo, tem de atrever-se ainda que falhe, ainda que julgue-lhe inútil o esforço após a batalha. É a única forma de aproveitar o juízo como aparato estimulante, como delineador de barreiras a serem vencidas, como desafiante dos limites da vontade. Expor problemas, portanto, parece apenas o marco inicial de um trajeto intelectual que se lhes desprende.
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A fecundidade de Victor Hugo
Parece uma afronta, um insulto constatar Victor Hugo ter composto mais de cento e cinquenta mil versos em apenas uma vida. Cento e cinquenta mil! É inacreditável, uma verdadeira humilhação defrontar essa fecundidade inatingível, esse monumento poético proveniente da pena de um único homem. Se exercitamos a matemática, chegamos a uma média de produção diária que só parece razoável a alguém que empregue a vida inteira apenas em dormir e compor versos. Considerando todo o processo criativo que envolve a ideação, planejamento, estruturação, realização e apuro; considerando que uma mente normal esgota-se no cansativo trabalho de fisgar palavras no dicionário, e que portanto é inviável, desestimulante e até contraproducente uma jornada de trabalho muito longa, como justificar Victor Hugo? Como aceitar-lhe a obra poética, sabendo haver peças, romances, ensaios sob a mesma assinatura? É espantoso…
Há poucos exercícios tão saudáveis…
Há poucos exercícios tão saudáveis e estimulantes quanto personificar o imortal Bernardo Soares. Em mente, conversar com os inexistentes ou distantes pares, viver o que as circunstâncias impedem, criar o que a vida não permite… tudo isso numa prática que progressivamente enriquece os detalhes, altera os cenários, amplia-se e evolui. O fazê-lo é abrir uma nova dimensão para a vida, é engrandecer-se mediante experiências impossíveis, aperfeiçoando o raciocínio, desafiando-se, experimentando emoções todas novas num plano onde não há limites ou impedimentos. É deixar, por fim, o disfarce de ajudante de guarda-livros para efetivamente viver a realidade que escolher.
Por todas as vezes que gargalhei…
Por todas as vezes que gargalhei do temperamento explosivo de Cioran, de sua maravilhosa fúria na fila de mercearias e inúmeras outras situações que recordo-me sempre em risadas, parece que estou, agora, a pagar por elas, e parece direcionarem-me gargalhadas do céu. Todas as banalidades estúpidas que me compõem a rotina, a porta que deve abrir para que eu saia de casa, a balança que deve funcionar para que eu pese e compre comida, o sol que deve altear para que eu saiba ser dia… todas essas coisas banalíssimas, que sempre funcionam porque têm de funcionar ou, melhor dizendo, todos os seres humanos cuja função de alguma forma me afeta, juntos e ao mesmo tempo, deixam de cumpri-la, mas com o capricho de interromperem-me a rotina e estorvarem-me com problemas os quais não tenho meios para resolver! Cioran certamente gargalha; é o preço: agora é minha vez de fazê-lo rir… Mas é incrível notar a impossibilidade da paz neste mundo. Buda é um personagem folclórico: no mundo real, haveria alguém para tirá-lo do sério e arruinar-lhe o progresso espiritual.