Novamente o “bloqueio criativo”

Causa riso a falta de criatividade destes roteiristas que, ao representar um escritor, precisam obrigatoriamente descrever um período em que ele experimenta o tão falado, tão romantizado e tão ridículo “bloqueio criativo”. Todos os profissionais de todas as áreas possuem processos, possuem método, possuem uma sistemática de trabalho que os permite obter resultados a despeito de oscilações de humor, de ânimo e de criatividade; exceto, é claro, esta besta do escritor, que insiste em sentar-se diariamente diante de uma tela branca, sem ter absolutamente nada planejado. É lamentável dizê-lo mas, infelizmente, esse tal “bloqueio criativo” simplesmente não existe para escritores profissionais. Sentar-se diante de uma tela branca é somente amadorismo; e o escritor profissional que o faça não faz senão agir como amador. Não é preciso muita experiência para perceber que o processo de ideação de enredos, capítulos e poemas pode ser executado em grande parte longe da mesa de trabalho, relaxadamente, em ambiente por vezes mais propício para a criação. Não é preciso muita experiência, também, para perceber ser mais fácil executar um plano que planejar do zero e, em seguida, executar o planejado. Não, não… é preciso continuar representando o escritor como uma besta, que teima em sentar-se diariamente para resolver todos os problemas de uma só vez, o escritor que se senta e aguarda que desça do céu um anjo e lhe guie a mão… Que piada!

Fazer bons versos é difícil

A verdade é que fazer bons versos é difícil: é preciso apuro, paciência, elevação de ideias… ao passo que, para fazer versos chamados bons, basta uma afinidade. Ocorre que ser exótico, em poesia, é por vezes cativante; por vezes diverte e até impressiona a novidade técnica; contudo, após algumas páginas, deixa esta de impressionar e fica evidente as paragens habitadas pela mente criadora. Se não há engenho, se não há grandeza, se não há profundidade, se lhe resumem os versos em brincadeiras e futilidades, tudo isso torna-se impossível de esconder.

O poeta moderno, adepto das práticas…

O poeta moderno, adepto das práticas em voga de exterminar a pontuação dos versos, alterar grafias, ignorar maiúsculas, desenhar com letras, repetir palavras exaustivamente, etc., etc. tem de concentrar-se muito para não se passar por uma criança ou, em casos mais graves, por um retardado mental. Como pouquíssimas páginas bastam para enjoar de tais artifícios! Depois, ficamos a perguntar: e que mais? Frequentemente, temos de concluir que não passam eles de disfarces para uma incapacidade de se trabalhar palavras de maneira dinâmica e interessante, mostrando domínio e valendo-se criativamente dos recursos que oferecem o idioma. Acabamos por refletir naquilo que tanto repetem os latinistas, e parece mesmo a inteligência estar relacionada à habilidade na articulação da linguagem…

Admira ver o autor que intercala sons e imagens

Embora não seja possível dizer que haja algo como o método de narrativa ideal, admira ver o autor que intercala sons e imagens, ações e pensamentos, como que estimulando todo o nosso aparato imaginativo. Tal balanço confere o mais das vezes uma dinâmica estimulante às linhas que lemos, e parece grande parte dos efeitos da obra derivarem destas variações que tornam as singularidades mais salientes. A uma cena estática, descritiva, segue-se uma ação repentina, que desemboca em reflexões e assim por diante; quer dizer: cada passagem acaba realçada em contraste com a anterior e com a seguinte; e, talvez, seja isso algo positivo para o conjunto.