O cume é vizinho natural do abismo

Há um notável problema proveniente da ascendência e resume-se basicamente nisto: o cume é vizinho natural do abismo. Poderia formular de outras maneiras, dizendo que quando se chega ao topo, o movimento só é possível para baixo, ou que a distância do pico ao precipício é qualquer deslize… Penso, agora, em Julien Sorel, mas os exemplos são inúmeros. Por que, exatamente, o destaque nos torna tão vulneráveis? Inveja? Pelo desejo que, por sua natureza, nos expõe? Não posso deixar de notar o potencial destrutivo da ascensão, as provações que esta normalmente exige e seu prêmio enganoso, senão injusto. Racionalmente, a conclusão se impõe: talvez o mais sábio seja deixar imediatamente de escalar.

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O grande estilo exclui também o que é agradável

Palavras de Nietzsche:

A grandeza de um artista não se mede segundo os “belos sentimentos” que ele desperta: só as mocinhas acreditam nisso. Mas segundo a intensidade que emprega para atingir o grande estilo. (…) Não desejaria desapreciar as virtudes amáveis, mas não se concilia com elas a grandeza de alma. Nas artes, o grande estilo exclui também o que é agradável.

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Injustiças sem fim

No estudo da história, mais impressionante que as conquistas, as guerras, o desenvolvimento das civilizações  e todo o resto, é a sucessão quase que inacreditável de injustiças cometidas contra os grandes homens. Minoria são os que, honrados, valorosos, angariaram para si uma memória digna da própria obra. Pior que as perseguições que alguns tanto sofreram em vida, pior que o desprezo, a conspurcação pública, a pobreza, a vida que se lhes apresentou como uma sequência de frustrações, desgostos, um após o outro, amontoando-se e avultando como fossem provações, pior que tudo isso é, após a morte, caírem em olvido, senão difamados, quando já não podem responder ou, ainda: provar como a raça humana lhes é indigna.

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O mundo como vontade e representação, de Schopenhauer

O mundo como vontade e representação… Penso nessa obra sempre em desalento, porquanto ela tratou de atacar violentamente minha já tíbia dimensão humana. A história é antiga. Lembro-me de que, assim que me pus a estudar filosofia, passou a ser recorrente o nome de Schopenhauer. De início, busquei estudar a história da filosofia, em perspectiva abrangente, a tornar possível que eu estruturasse um plano de estudos de longo prazo para, assim, iniciar-me o contato direto com as obras. Seja qual fosse a fonte, lá estava o autor direcionando palavras amargas a Schopenhauer, associando-o a um pessimismo radical, apontando-lhe o viés nocivo da obra. Pouco depois, li um ou dois livros de Schopenhauer: vi inteligência, mas nada de tão calamitoso; deixei-o de lado e prossegui nos meus estudos. Então continuei a ouvir Schopenhauer, sempre Schopenhauer, quando me lembro de que li um ensaio excelente de Thomas Mann, autor que tenho em alta estima. Mann, no ensaio, explora e externa a influência de Schopenhauer na própria obra, agradecendo por ter lido o filósofo no início da carreira. Entretanto, classifica a obra de Schopenhauer — cujo coração é O mundo como vontade e representação — como filosofia para “jovens”, dizendo, em seguida, Schopenhauer ter trabalhado até o final de seus dias para justificar, com “sinistra fidelidade”, uma filosofia juvenil. Depois desse trecho perdi completamente o interesse por Schopenhauer, ignorei tudo o que o próprio Thomas Mann havia dito a respeito das marcas profundas que Schopenhauer gravou-lhe para o resto da vida. Quer dizer: eu, aos vinte e poucos anos, achava-me imune a qualquer tipo de “filosofia para jovens”, imune e desinteressado. Então o tempo correu. Mais à frente, Nietzsche, que tantas vezes grafou o nome do ilustre compatriota. Antes de Nietzsche, e mesmo antes de estudar filosofia, Machado de Assis, cuja obra prendeu-me e encantou-me por anos a fio. Quando passo a estudar Machado de Assis pela crítica, o susto: influência notória de Schopenhauer. Então me decido: lerei este tal O mundo como vontade e representação. Hoje, é difícil encontrar palavras para descrever esse livro e seus reflexos em minha vida. Recordo Thomas Mann associar Schopenhauer à busca pela morte em vida: talvez seja uma boa definição para a obra. O que posso dizer é que, para mim, foi leitura sem volta. Há evidente sabedoria no livro, que não é senão uma extensa meditação. Mas essa obra, se lida como se deve ler qualquer obra, com sinceridade e dando crédito ao autor, é um autêntico veneno, e talvez o mais potente. Aí está: li O mundo como vontade e representação e tenho estima, admiração por Schopenhauer; mas Schopenhauer, terminantemente, não é autor para mim, um indiferente nato, misantropo incurável, várias vezes acusado de insensível e com ceticismo correndo pelas veias. Schopenhauer cuidou atrofiar-me ainda mais a dimensão humana, exterminou-me as ilusões, contaminou-me para sempre. Hoje em dia é moda ter “opiniões”, “convicções”, ler um livro e dizer “concordo” ou “não concordo”. Quão fácil seria minha vida fosse-me a mente adepta a tal simplificação… Leria O mundo como vontade e representação e diria, com dedo em riste: não concordo! Terminei a leitura, pois, e julguei nada tivesse ocorrido. Segui meus estudos, toquei adiante. Estava imerso em alguns autores franceses. Os meses passaram, e senti-me imune à filosofia exposta no livro. Quanta ingenuidade… Precisou correr um ano para que eu percebesse ecoando em minha mente, todos os dias, as palavras desse livro infesto: “felicidade é não sofrer”, “o desejo é fonte inesgotável de sofrimento”, “negar o desejo”, “negar a vida”… E percebi-me impregnado até a unha de indiferença, alheio a tudo o que um dia valorizei. Julguei-me os atos e vi que nada mais havia que me fosse caro como outrora, tornei-me um túmulo, distante de todos, inclusive os mais próximos. Eu, que nunca fui fã de mim mesmo, que sempre me julguei nocivo, pernicioso, menos humano que os demais; eu, que sempre fui contra os meus próprios instintos, tendo-me em péssima estima, medindo palavras o tempo inteiro a não frustrar as pessoas, vi robustecer e solidificar-me quiçá para sempre o lado mais sombrio, mais detestável de minha personalidade. Tudo contra minha própria vontade, imposto, impelido por esse maldito O mundo como vontade e representação que, mesmo que eu tente negar, talvez tenha sido a leitura mais impactante de toda a minha vida.

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