A despeito de toda aflição inerente…

É verdade que, a despeito de toda aflição inerente da escrita, organizar o pensamento, moldá-lo em palavras, variando formas, testando novas possibilidades e vestindo-o diferentemente a cada nova peça, tem o seu quê de prazeroso. Despretensiosamente, é possível aproveitar e tomar gosto pelo processo, sem o qual não se chega longe nas letras. O lamentável é que a literatura não se resume a estes momentos em que o pensamento parece matéria inerte e a função do artista simplesmente conformá-lo, como se, com fazê-lo, o artista se não vinculasse a ele de forma que a expressão aparenta sempre imperfeita e sempre a representar uma dolorosa separação.

Há algo de ostensivamente invasivo…

Há algo de ostensivamente invasivo nas biografias que parece sugerir ser condenável o próprio interesse por elas. O que nelas se busca é a mesma intimidade que, em vida, o bom senso manda respeitar. Mas a curiosidade humana é invencível, e as biografias são indispensáveis. Embora uma obra independa da biografia, desta o autor não se pode descolar. E são elas que nos mostram a realidade que ampara o ato artístico, realidade multifacetada, mais ou menos grata, mais ou menos inusitada, mas que sempre motiva a expressão. Deve-se a elas também a revelação de uma dimensão muitas vezes essencial para a correta compreensão de uma obra, e não há dúvida que, pelo muito que já esclareceram e contribuíram, acaba-se em paz com a culpa daquele sentimento de invasão.

Um grande escritor não escreve…

Um grande escritor não escreve para a sua geração e deve aceitá-lo. Mais difícil será o fazê-lo quanto mais perca o senso da própria grandeza ou, antes, da grandeza da própria missão. O fazer literário, o desejo de inserir-se na literatura tem de ser encarado, primariamente, como um reconhecimento do valor e do poder das letras. Manifestar-se desta, e não de outra forma, implica meditar e escolher. Por que a literatura? A reflexão logo apontará o óbvio: o escritor é alguém transformado por ela, e escreve porque assim fizeram os objetos de sua admiração.

Dois escritores sinceros deveriam cultivar…

Dois escritores sinceros deveriam cultivar mutuamente um sentimento semelhante ao que deveria haver entre dois adversários políticos bem-intencionados: um sentimento de respeito e identificação. Em ambos os casos, porém, são raríssimas as exceções que sobrepujam a mesquinharia corriqueira. Deixando de lado superficialidades como estilo, escolas, gerações, salta aos olhos o fato de que dois escritores, sejam eles quais forem, possuem um elo que os diferencia do restante dos homens, ambos fizeram uma escolha idêntica perante o problema da existência, e o natural é que tal distinção se convertesse numa afinidade. Muito mais concordam em escolhendo a literatura como veículo de expressão da consciência que divergem em aspectos exteriores da vocação. Admiti-lo, contudo, é dificílimo e parece exigir uma virtude que poucos deles possuem.